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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Café

sentámo-nos. sobre a mesa duas chávenas: vazias. finjo uma palavra que cai -morta- no abismo da tua chávena. acendo um cigarro que geme a agonia da sua cremação; nem o levo aos lábios: já ardeu. um instante: acendi-o no tic: inflamou-se no tac.

sentados, defronte da mesa fria do café, trocamos fantasmas e evitamos olhares. naquela mesa lá longe: estamos ainda sentados: antigos: no silêncio de um sorriso: há muito tempo. mas agora: tusso uma palavra: deita-la na chávena. penso: o amor era o silêncio.

sentávamo-nos noutra mesa: ainda lá estamos: esbatidos. penso:
o amor era outra mesa.
perguntas "Entendes?"
finjo que sim: e mergulho na chávena: vazia.


Igor Lebreaud

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Que Amor?

perguntas Então que amor; que tipo de amor
te trouxe aqui? [se tu não sabes; se afinal
não sabes...] Explico-te As montanhas procuram
arrancar-se à própria terra e outono e primavera
Nunca se encontram.
Então que amor? Esse que acredita que Um pouco mais
e toco no céu. [chega-te a mim]


Igor Lebreaud

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Seda Preta

movem-se os desejos em cetim ou seda preta
e o Amor (estandarte de vitória num arco de triunfo)
pende agora: esfarrapado: das ruínas dessas torres:
gigantes de mármore: e o Amor torna-se lâmina e não
escudo: agora espada em cetim ou seda preta:
e o suposto amante: o suposto irmão: agora monstro
e o Amor (bandeira de infinito na varanda de deus)
é apenas mortalha de um sonho numa vala comum.


Igor Lebreaud

A Cantiga dos Dois Amantes

vou escrever-te uma cantiga: Não a outra: mais bonita:
um passo de valsa, um pouco de mazurka: começa num tango.
para letra: dois versos: o terceiro de improviso.
violinos já lá estão: falta piano e violão: e talvez a guitarra
pelos acordes já dados: Quase pronta: a canção.
presto, ma non tropo. tocamos sem maestro: começa num tango.


Igor Lebreaud

sábado, 17 de novembro de 2007

O Regresso

(ainda [e sempre] para Liliana)

entende: do Passeio Num Céu Fechado: para o Rumo
Inalterável do Meu Caminho: é essa a hora que geme:
fecunda: no meu ventre. O Regresso: a uma casa
que dá pelo teu nome, que se desenha muito para lá
do visível.(diz-me:regressa e todos os teus pecados
se tornarão parte da Estrada Percorrida que foi esse
Passeio Num Céu Fechado: se o destino te atinge agora
e é este Mundo: Nós: esta Casa)
entendes?
no ventre de minha Mãe sei que já eu Gemia: esperava
esta hora que nasce: a Hora em que moras e onde
devo chegar: e apenas uma frase nos meus lábios:

esta rosa trouxe-a para ti.

fixa os olhos na porta: dessa casa que dá pelo teu nome
e entende: este é o Rumo Inalterável do Meu Caminho.


Igor Lebreaud

No tempo das Rosas

(para Liliana)

houve um tempo em que nos amávamos e eu
levava-te rosas de aurora e tu rias e era bonito.
hoje: não sei o que é mais distante:

se o tempo em que nos amávamos ou:
essa rosa: já gasta: num jarro sem água.



Igor Lebreaud

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Anjo de Vidro Baço

Anjo de vidro baço. dizias num suspiro
tão triste como o tic do correr das horas e
o tac das horas que não regressam que
se reflectem apenas no vidro baço destas asas
que afagavas. e eu dizia-te Nem só os anjos.

e tu entendias e deixavas o silêncio percorrer
os ponteiros; soldados de chumbo marchando.

Anjo de vidro baço. insistias veemente
e eu deixava porque essas horas eram tuas.


Igor Lebreaud

Olhei-me no espelho frio

olhei-me no espelho frio Tão nua, pensei
e deixei as vestes dos dias correr suave
pela pele Massacrada, a minha pele
ferida. e a minha púbis Sarça
Ardente e tão virgem inesperadamente
fendida pelo nosso amor: duas mulheres
ofegantes de carícias As tuas tão cruéis.

o meu olhar Frio no espelho Tão feio
este reflexo. pobre fêmea nua defronte
de si. vejo-me no espelho. nua. a pele
ferida e no meu lugar Vejo um homem.
olhou-se no espelho frio Tão feio, pensou.


Igor Lebreaud