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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Botas de Aço

Katerina não dança, mas queria dançar: baloiça
suave baloiço nas botas de aço e diz que não canta: mas
sabe cantar. e é feliz no seu sorrir discreto e gosta de
chorar com o céu azul. Katerina diz que não onde dizem
que sim: mas é porque sabe que não: e não vê razão
para mentir assim. mas queria dançar e baloiça
suave baloiço nas botas de lastro que calça para não
sair do chão: porque se o céu é azul ela chora e
então sorri e apetece voar. Katerina sabe que a chuva
há-de passar: sem dúvida que há-de passar. amanhã
diz que será tudo um pouco mais leve e então baloiça
suave baloiço nas botas de aço que não quer tirar
não vá o céu escurecer e desatar a chover.

[tira as botas, Katerina.
voando para lá das nuvens:
todo o céu é azul.]


Igor Lebreaud

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Nuvem Sem Calças

tinhas maiakovski sobre a mesa. nos teus lábios formavam-se
gotas de orvalho. disseste "se ao menos a carne" e estremeceste.
a minha língua desenhou-te o peito e tu achaste que
"a carne devia ser nuvem" e sim, digo-te que sim. maiakovski
tenta dizer-me algo, encolhido sobre a mesa.
o que era? o que seria? a memória atrapalha-me: ainda tenho
uma língua desenhando o teu orvalho e o poeta gemendo
"Melhor que orações..." e o resto [que não me recordo, se dilui orvalho
ou nevoeiro] e insistes "se a carne fosse menos carne, então talvez o amor."
penso em maiakovski e pergunto-me se sobre a mesa estaria
um poema ou o poeta [nunca o homem: o homem apagou-se
quando se escreveu]. "Melhor que orações..." "Melhor que orações são..."
e não sei o que é que me dizia. a minha língua chora agora
o orvalho da tua boca de então. "a carne sendo nuvem então a língua
no meu peito seria amor" e não te entendo. só te pedi que deixasses
desenhar o orvalho nos teus lábios [e dos lábios para o peito e
do peito para as coxas e das coxas...] ah sim, já me recordo!
tinhas maiakovski sobre a mesa: "Melhor que orações são artérias e tendões."



Igor Lebreaud

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nos teus braços

fui eu quem Trouxe o sangue a esta casa
Mas abandono agora Os traços oblíquos do meu caminho
e não
desejo mais senão o doce veneno do teu leito
que se torna chuva sobre o meu corpo nu
e atingir na nossa paz o imaculado perdão
(a culpa são fendas nos teus braços).
fui eu quem Partiu num dia distante
(ainda o meu nascer era sonho vago na criação do mundo)
e hoje já velho explico-te O Destino,
porque os velhos não querem crer
que todos os passos
que deram
são culpa sua
(e a culpa ainda te rasga os braços).
fui eu quem Desceu aos Infernos procurando
uma alma vadia que
há muito partira para outros Reinos
e é este homem cansado que agora chega
para se deitar no teu leito de chuva
pedindo Dá-me hoje um novo nome e
lava para sempre os meus pecados
(lentamente a culpa sara nos teus braços).

sábado, 8 de dezembro de 2007

Vislumbres do Real

abre a porta. vê a cova vazia em que dormimos.
ninguém sonha neste leito e somos as ostras
que recusaram seguir o carpinteiro, as que ele
não devorou mas ascenderam mártires canibais.
abre a porta. desliza e deita-te na cova vazia.
ninguém conhece o ar que o amanhã respira e
não dormimos, recusamos o sonho e o acordar.
nada nos pode salvar. e hasteamos a guerra.
abre a porta. nada ficou. é matar ou morrer.
abre a porta. vê a cova vazia que temos por altar.


Igor Lebreaud

Árvores de Vidro [Elegia]

às vezes O amor morre.
nem sempre se nota: permanece De pé,
guerreiro que nem a morte derruba,
Árvore de Vidro em campo de betão.
às vezes Muitas vezes O amor morre
e nem ele sabe.
insiste na vida, exige-se Eterno
(o amor não sabe que as folhas tombam no outono).
às vezes Se o amor morre
tenta respirar e massajar o peito.
diz Arranca o preto do cinza e banha-te na luz
mas respondes É tarde para cores tão nuas
e o amor sabe que sim. no fundo sabe que sim.
às vezes Quantas vezes O amor morre
e nem lhe fazem funeral.

[Passa-me a enxada]


Igor Lebreaud

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Memória

sê meiga, meu amor. sê meiga.
sê branda na memória de ti que
me visita no cair desta noite.
menos perfume, meu amor. menos perfume.
e menos brilho no teu olhar para que
esta memória não viaje
para um sonho de saudade abstracta.
menos tu, meu amor. menos tu.
sê menos os teus cabelos e
menos ainda as tuas roupas e
esse teu sorriso e o teu andar
como de quem baila. sê menos
memória em mim.
liberta-me, meu amor. liberta-me.
deixa-me ser o pássaro ao qual abrem a gaiola
e não sabe para onde ir porque as asas
esqueceram como se afaga o céu.
sê adeus, meu amor. sê perdão.


Igor Lebreaud

Balada do Homem da Lua

foi ao nascer: os dedos fizeram-se agulhas e os lábios
arame farpado e o pénis míssil nuclear.
vinha para a rua e
as meninas de organdi
mostravam-lhe o corpo e diziam
"guardei-o para ti."
foi sem querer: abriu-lhes a pele e
fez tricot dos seus tendões: uma camisola
e algumas meias
para dias de mais frio.
explodiu-lhes lá dentro e deixou-as sem nada.
deram-lhe uma pasta e mandaram-no ser gente
e as meninas
de organdi
acenavam-lhe da rua [esta tão bonita; aquela tão nua].
rasgou-lhes os lábios;
explodiu-lhes lá dentro e ficou sem nada.
não soube entender: surgiu uma menina
Sem laços
Ou organdi
que disse "não te mostro o corpo; não sei se é para ti"
e ele rasgou-lhe os lábios:
furou-lhe o peito.
e sem ver que a menina trazia no cabelo
um enfeite que era a Lua
explodiu por dentro pedindo-lhe que fosse sua.
e a menina deu-lhe o enfeite
e ele carrega agora seu fardo lunar.
a Menina?
foi para a Lua bailar.


Igor Lebreaud

Mea Culpa

confesso: há um lírio casto crescendo espontâneo
no meu calcanhar.
faz comichão e os sapatos
impedem-me de o coçar quando se remexe
talvez à procura
da melhor posição. sim, é chato.
confesso também: tenho um cuco no meu crânio
que fala comigo -- em morse.
por vezes demoro a saber o que dizer
ao vizinho que me diz Bom Dia.
estou a ver se entendo o que me diz o cuco mas
nunca aprendi morse.
confesso por fim: as minhas entranhas revolvem
ao som de Mozart.
ainda não entendi que peça tocam e
é por isso que o que digo
às vezes não tem nexo:
não sei se digo Fígaro ou A Flauta Mágica.
e soa como gases.

(é por tudo isto que falhámos)


Igor Lebreaud

Pietá

se sabias Então porquê? se conhecias o deslizar
dos ponteiros Procurando a hora que entrego
Então porquê? o puxar de um cobertor
sobre outro corpo Imerso Nu no teu abismo
(a solidão é por vezes tão amarga e pedes mais um café)

se sabias Então porquê? outro olhar capaz
de quebrar ponteiros e vazio da tua luz
Então porquê? esta nova hora erguida
em jeito de troféu e tu já não és tu
(noutro dia olhei-te e deus caiu-me nos braços:

chorando)


Igor Lebreaud

Que Amor?

perguntas Então que amor; que tipo de amor
te trouxe aqui? [se tu não sabes; se afinal
não sabes...] Explico-te As montanhas procuram
arrancar-se à própria terra e outono e primavera
Nunca se encontram.
Então que amor? Esse que acredita que Um pouco mais
e toco no céu. [chega-te a mim]


Igor Lebreaud

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Seda Preta

movem-se os desejos em cetim ou seda preta
e o Amor (estandarte de vitória num arco de triunfo)
pende agora: esfarrapado: das ruínas dessas torres:
gigantes de mármore: e o Amor torna-se lâmina e não
escudo: agora espada em cetim ou seda preta:
e o suposto amante: o suposto irmão: agora monstro
e o Amor (bandeira de infinito na varanda de deus)
é apenas mortalha de um sonho numa vala comum.


Igor Lebreaud

A Cantiga dos Dois Amantes

vou escrever-te uma cantiga: Não a outra: mais bonita:
um passo de valsa, um pouco de mazurka: começa num tango.
para letra: dois versos: o terceiro de improviso.
violinos já lá estão: falta piano e violão: e talvez a guitarra
pelos acordes já dados: Quase pronta: a canção.
presto, ma non tropo. tocamos sem maestro: começa num tango.


Igor Lebreaud

terça-feira, 27 de novembro de 2007

No limiar da Porta Encostada do Amanhã
observo o possível quarto em que não entramos.
Nada nesta Porta se fará Carne.

[escolheste permanecer:
sentada: no antever da ombreira
de uma Porta: inerte]



Igor Lebreaud

Ups!

explicas Foi o erro e nada mais Como se o estilhaçar das
coisas belas fosse apenas o errar do pé Fora de sítio:
erradamente colocado à frente do outro. Que andar?
[disseste As palavras: não importam.E pediste que falasse]

já nem sei que tamanho têm: os meus pés.


Igor Lebreaud

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Fogo

foi o arder Das nossas peles [tão antigas como
o rosto por detrás do rosto sobre o altar] Dos
dias em purgatórios de absinto Das palavras que
como animais escondemos na areia [e eu fiz-me
claustrofóbica avestruz:e preciso de luz] Essas
palavras que nem em gestos aceitámos pronunciar.
foi o arder Que me ensinou os passos Da tua valsa.


Igor Lebreaud

domingo, 18 de novembro de 2007

Jazzy Blues para uma Polka

trazes uma mazurka no bolso e Eu um velho blues na Alma
de quem passeia perpendicular às vidas. Tu danças e rodopias
e Eu traço à navalha uma linha para mim. Que distância nos
Separa?
Nenhuma Distância.

"I Just Wanna Be With You", clama o meu rádio passageiro
e eu sei. Sim, sei:Chris Rea tem razão. Pouco importa.

dá-me a tua mazurka, leva-me nas tuas polkas(princesa de cores
num castelo que julgas que ninguém pode ver E eu posso)e
deixo a minha guitarra de papelão abandonada
Apago este cigarro de rotinas itinerantes Que tem o meu rosto

E vamos girar. Não piso teus pés.


Igor Lebreaud

sábado, 17 de novembro de 2007

O Regresso

(ainda [e sempre] para Liliana)

entende: do Passeio Num Céu Fechado: para o Rumo
Inalterável do Meu Caminho: é essa a hora que geme:
fecunda: no meu ventre. O Regresso: a uma casa
que dá pelo teu nome, que se desenha muito para lá
do visível.(diz-me:regressa e todos os teus pecados
se tornarão parte da Estrada Percorrida que foi esse
Passeio Num Céu Fechado: se o destino te atinge agora
e é este Mundo: Nós: esta Casa)
entendes?
no ventre de minha Mãe sei que já eu Gemia: esperava
esta hora que nasce: a Hora em que moras e onde
devo chegar: e apenas uma frase nos meus lábios:

esta rosa trouxe-a para ti.

fixa os olhos na porta: dessa casa que dá pelo teu nome
e entende: este é o Rumo Inalterável do Meu Caminho.


Igor Lebreaud

No tempo das Rosas

(para Liliana)

houve um tempo em que nos amávamos e eu
levava-te rosas de aurora e tu rias e era bonito.
hoje: não sei o que é mais distante:

se o tempo em que nos amávamos ou:
essa rosa: já gasta: num jarro sem água.



Igor Lebreaud

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Adeus

fechas-te na estranha casa de seres tu

e por mais que procures não te encontras.

foi o impossível jogo de nos amarmos

e a aposta foi demasiado alta para que

nos consigamos agora erguer e andar.

fechas-te na estranha casa de seres tu

e desapareces para sempre na ilusão

de que existe de facto um lugar que és tu.

fechas-te e definhas na casa vazia. morres

triste e tão só na casa vazia de seres tu.



Igor Lebreaud

Talvez Cancro

aquele homem da outra noite disse-me

“tu és estranha, levas os seios no rosto.”

mas levo-os no rosto por não caberem

no peito que me dói um pouco

e o médico já me disse

“não é cancro.”


aquele homem da outra noite era míope

e não o acusei de estranheza portanto

que mal tem carregar as mamas na face?

mas todos me fitam na rua

e comentam baixinho

“será cancro?”


aquele homem da outra noite não me deu prazer

porque insistia em beijar os meus seios.

era assim tão difícil afagar o meu peito?

vejo-me nua perante o espelho

e com a mão no peito vazio percebo

“é pior que cancro.”



Igor Lebreaud